4 dias no Marrocos: conhecendo o Deserto do Saara

Escrevi, apaguei, reescrevi. Não sei como começar este post. Acredito que grande parte das pessoas já ouviu falar do Deserto do Saara, o maior deserto quente do mundo. E não é à toa, né? Ele possui 9 milhões de quilômetros quadrados dividido em diferentes países. Um deles? O Marrocos, nosso tema de hoje. Sempre tive o sonho de conhecer esse gigante da natureza, desde quando suas areias eram a imagem do plano de fundo da área de trabalho do nosso primeiro computador, um Windows 95. Estou entregando a idade aqui, hahaha. Mas, é sério, quando surgiu a oportunidade de uma viagem por lá, jogamo-nos. Foram quatro dias intensos – com muito perregue! – por lá e você confere toda a nossa experiência – minha e do Gian – a partir de agora.

Mas antes, uma breve contextualização. O Marrocos foi um dos destinos da nossa Eurotrip, uma viagem de 35 dias que fizemos para celebrar o fim do nosso intercâmbio em Dublin, na Irlanda. Eu sei, caro leitor, Marrocos não é Europa, é África! Mas foi o nome que demos para a nossa viagem. E pela proximidade física não foi difícil incluir o destino no roteiro. Antes de chegar até lá, conhecemos a Escócia, onde passamos um dia em Edimburgo e um dia em uma excursão pelas Terras Altas do país; depois a Inglaterra, onde visitamos Liverpool, Manchester (incluindo o estádio em Old Trafford), a Chatsworth House, Londres, Bath, Stonehenge, Cardiff (já no País de Gales) e Bristol.

Como chegar no Marrocos?

Saímos de Londres às 6h10 da manhã – depois de passarmos à noite dentro do Aeroporto London Stansted, o que eu não recomendo! – e chegamos em Marrakech (ou Marraquexe) às 9h45. Voamos de Ryanair, a low cost irlandesa. O Aeroporto de Menara, por onde chegamos, é o segundo mais importante do país e está a apenas 6 quilômetros do centro da capital. É válido ressaltar que, antes de passar na imigração, é preciso preencher um formulário de papel para apresentar ao oficial junto com o seu passaporte. Eles ficam disponíveis em bancadas antes das filas. Mas, o que eles não disponibilizam são canetas para tal fim. E aí virou um Deus nos Acuda de um pedindo emprestado para o outro (e lembre-se, era um mundo pré-pandemia). O Gian emprestou a minha caneta para uma menina e eu nunca mais a vi. Nem a menina e nem a caneta. Ela, por sua vez, emprestou para outra pessoa e assim sucessivamente. E eu não podia ficar procurando ou esperando porque estava combinado que o nosso transfer estaria esperando a gente no desembarque do aeroporto.

Eu achei a imigração diferente de todas as outras que já havia passado até então. Principalmente porque eles não deixaram eu e o Gian irmos juntos para o guichê – e tomamos uma bronquinha logo ali. Geralmente, se você viaja junto, você se apresenta junto. São os mesmos documentos, reservas e afins, não é mesmo? Mas ali, aparentemente – ou foi só naquele dia que os oficiais não estavam animados – não é assim. Então, quando chegar por lá fique prestando atenção nos funcionários para ver o que você tem que fazer (aí você tenta evitar grosserias).

O pacote de 4 dias e 5 noites

Além de suas incontáveis belezas naturais e históricas, o Marrocos tem seu dirham marroquino (nome da moeda) desfavorável em relação ao euro (o real também, mas a diferença é pouca). Ou seja, é um destino que atrai muitos europeus e, é claro, brasileiros que estão vivendo – e trabalhando – na Europa. Quando chegamos em Dublin para o nosso intercâmbio, eu e o Gian percebemos que sempre apareciam pessoas nos grupos de Facebook Brasileiros na Irlanda e afins pedindo indicações de tours no Marrocos e começamos a enxergar ali uma possibilidade muito boa de viagem.

Quando estávamos planejando então a nossa Eurotrip, o Gian entrou em contato com as duas agências mais indicadas nos grupos. E de acordo com o atendimento, optamos pela Marrakech Tour Trips. Eles nos ofereceram um pacote de 4 dias e 5 noites que ia até o Deserto do Saara e terminava retornando à Marrakech, a capital do Marrocos. O valor era de 140 euros por pessoa e basicamente tudo estava incluso, com exceção de alguns almoços e jantares, e as bebidas no decorrer dos dias.

O que fizemos no Marrocos?

Assim como fiz no post de Londres, na Inglaterra, vou explicar o que fizemos e vimos em cada um dos dias no detalhe mais adiante. Agora, para fins de organização, fica um resumo geral para você saber o que espera por você ainda neste post.

  • Dia 1: Chegada em Marrakech e já pegamos a estrada. Passamos pelas Montanhas Atlas, visitamos o Kasbah de Ait Benhaddou, passamos por Ouarzazate, considerada a “Porta de Entrada do Deserto”, e enfim chegamos em um hotel nas Gargantas de Dades.
  • Dia 2: Partimos depois do café da manhã sentido ao Deserto, visitamos as Gargantas do Todra, e fomos para as Dunas de Erg Chebb. De lá partimos para o acampamento lá no meio do Saara em uma caravana de dromedários.
  • Dia 3: É a volta para Marrakech, um dos dias mais puxados, na minha opinião, pelo tempo dentro do carro. Deu para fazer uma visita rápida a uma cooperativa de Óleo de Argan.
  • Dia 4: Saímos para passear em Marrakech sozinhos, tomamos um golpe ainda de manhã s e voltamos correndo para o hotel.
  • Dia 5: Dia de ir embora e prosseguir viagem. Nosso transfer nos pegou no hotel e nos levou até o aeroporto. O próximo destino da Eurotrip? É Amsterdã, na Holanda.

Informações importantes para antes de chegar

Já falei ali em cima que a moeda do Marrocos é o dirham marroquino. Tenha sempre ele em mãos. No nosso caso, o transfer parou em uma casa de câmbio e todas as pessoas do nosso grupo foram lá trocar dinheiro. A gente fica muito mal – ou bem, né? – acostumado turistando na Europa porque todos aceitam cartão, pagamentos digitais e etc. Mas ali não é assim. É uma cultura completamente diferente. Então para não ficar em uma saia justa tenha o dinheiro correto em mãos. Muitos aceitam e até pedem euro porque sabem que a conversão é valiosa para eles, então neste caso tome cuidado você para não cair em um negócio ruim.

Por falar em negócio ruim, cuidado com o assédio de vendedores. Principalmente em Marrakech. Se você deixar que coloquem um macaco no seu ombro para fotografar, você será cobrado por isso. A mesma coisa com cobras. E se você deixar pintarem uma tatuagem temporária em você, mesmo que você não tenha pedido, também terá que pagar. E assim por diante. E veja bem, eu entendo. O Marrocos não é um país rico e grande parte da população depende muito dos turistas para sobreviver. Mas acho que eu estava muito mal acostumada no Reino Unido então o assédio me incomodou bastante na época.

Outra coisa importante de saber, segundo euzinha mesma: em Marrakech faz calor, no deserto não. Eu passei mais calor em Caldas Novas, em Goiás, do que no Deserto do Saara. Nossa, Jeanine, que exagero! Não é. À noite fica mais fresquinho ainda. Então tenha isso em mente na hora de arrumar suas malas e partir. Ah! E muitas mulheres me perguntaram – depois que eu comentei que tinha ido para o Marrocos – se eu me senti segura por lá. A resposta é sim na maioria das vezes, já que eu contratei uma agência que me pegou pela mão lá do aeroporto. Somente no último dia, em Marrakech, que eu me senti desconfortável e troquei meu shorts, que eu tinha colocado para tomar café da manhã no hotel, e fui vestir calças. Mas, no rápido giro que fiz na cidade, vi muitas pessoas com roupas de calor e não pareciam incomodadas. Talvez tenha sido uma experiência particular ruim onde fui falar com o recepcionista e ele não respondeu olhando para o meu rostinho lindo. E quando o Gian estava perto, ele só falava com o Gian.

O que mais? Ah, carro! Em alguns posts aqui no blog, eu e a @jenifercarpani já comentamos que crescemos viajando pelo Brasil de carro com os nossos pais. Então, ficar bastante tempo dentro de um nunca foi um grande problema. Mas, passar pela Montanha Atlas e suas assimétricas curvas foi um desafio para meu estômago. E o tempo de viagem também. E sete pessoas dentro do veículo idem. E a playlist do Mohamed, nosso motorista, está gravada no meu cérebro até hoje. E para você entrar no clima junto comigo com música mais tocada das cinquenta mil horas de viagem, é só rodar o vídeo abaixo (nota: ele falava espanhol, mas a gente se entendia bem).

As atrações do Marrocos

Pronto, caro leitor. Agora que Ave Maria de David Bisbal também grudou para sempre no seu cérebro vamos entrar no detalhe de cada uma das atrações que vimos na nossa viagem pelo Marrocos. Preparadx?

Dia 1

Gian e eu passamos a noite em claro dentro do Aeroporto de Londres, então o cansaço – lembre-se, já estávamos há mais de 15 dias perambulando – estava batendo forte. Quando chegamos no Aeroporto de Marrakech haviam outros nos esperando dentro do carro para iniciarmos a viagem até o deserto. No veículo, contando o Mohamed (nosso motorista), estavam sete pessoas (mais um casal e duas irmãs). Não foi ruim, mas não foi exatamente confortável (ou o meu sono já estava me deixando mais mal-humorada do que o normal hahaha).

Montanhas Atlas

A primeira parada da viagem foi para fotografar as Montanhas Atlas. Se você olhar no mapa que eu coloquei lá em cima neste mesmíssimo post, vai vê-las entre Marrakech – de onde saímos – e Ouarzazate – onde estávamos indo – e é preciso atravessá-las para chegar no nosso destino: o Deserto do Saara. É uma cordilheira que se estende por cerca de 2.500 km e passa por países como Argélia, Tunísia e, é claro, o Marrocos. Suas formações – originadas há milhões de anos durante uma colisão entre os continentes americano e africano – são classificadas de acordo com a altitude, sendo o Alto Atlas (4.167 m), Atlas Médio (3.356 m) e Pequeno Atlas (ou Anti-Atlas, 3.305 m).

E lá em cima você encontra, além de um cenário natural surpreendente e estradas sinuosas, o povo berbere. Já ouviu falar sobre eles? Eles vivem no norte da África desde o período que estudamos na escola como Antiguidade. São nômades e, historicamente, os grandes responsáveis pela abertura de rotas comerciais que atravessavam o deserto no passado. O Mohamed, nosso motorista-guia-transfer-e-fã de música latina, definiu os berberes para a gente de uma forma bem interessante: um povo sem uma pátria. É uma situação muito parecida com a dos judeus antes da criação de Israel. Forte, né?

Ait Benhaddou

Nossa próxima parada foi na cidade (ou vila) de Ait Benhaddou, localizada nas Montanhas Atlas, onde conhecemos um Kasbah, uma antiga fortaleza berbere. Suas ruelas são repletas de viajantes então existe todo um comércio local voltado para os turistas. Além de toda sua significação histórica – que falaremos mais adiante – o Kasbah de Ait Benhaddou foi declarado um Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e ganhou fama pelas suas aparições cinematográficas. Ele foi locação de produções como O Gladiador, A Joia do Nilo e, mais recentemente, Game of Thrones. Ali foi Yunkai. Você se lembra?

Kasbah (ou Casbá) vem do árabe e significa “parte central de uma cidadela”. Essas fortificações foram construídas para proteção dos povos berberes e de seus animais. Eram pontos de parada de caravanas que faziam as rotas comerciais. Eram erguidos com materiais como argila, estrume e palha. Por isso o interior das casas são bem frescos.

Atlas Studios

Depois de almoçar, Mohamed nos levou para ver a fachada do Atlas Studios, já na cidade de Ouarzazate, considerada a grande porta de entrada do deserto. Já ouviu falar dele? Fundado em 1983, é considerado um dos maiores estúdio de filmagens do mundo com uma área de 322 mil quilômetros quadrados. Foi usado para gravações de cenas de diversas produções famosas como O Gladiador, Ben Hur, A Múmia, a Paixão de Cristo, Game of Thrones e Alladin. É aberto para visitas, mas ninguém do grupo quis entrar para ver. Ainda teríamos um bom pedaço de chão pela frente e todos estavam ansiosos para chegar logo no hotel, localizado nas Gargantas de Dades.

Dia 2

Se eu tivesse que definir o segundo dia de viagem no Marrocos em uma palavra ela seria: intenso. Mas, como o blog me permite espaço para escrever, divagar e analisar tudo o que eu vivi. Então segura os textões. Brincadeiras à parte, é realmente importante frisar que na época da viagem o Voyajando não existia. Estou escrevendo sobre a minha vivência de outubro de 2018 com o olhar – muito maduro hahahaha – da Jeanine do futuro. Tá bem? Então tá bem.

Preparados? Hahaha

Gargantas de Dades

Nós pernoitamos em um hotel que fica lá na parte superior (Alto Atlas) dos desfiladeiros chamados de Gargantas de Dades e – sinceramente – ainda bem que estava de noite quando chegamos na acomodação. Porque só no dia seguinte é que vi – porque na escuridão eu só tinha sentido – como era a estrada que me levou lá para cima. Naquele momento eu agradeci aos céus e ao Mohamed por estarmos bem e nem me importei muito com sua playlist. Mas, só naquele momento. Porque depois entramos no carro de novo e voltamos para a estrada e para as músicas em espanhol.

Gargantas de Todra

Seguimos viagem e fomos para as Gargantas de Todra e, aí querido leitor, foi aquela sensação de estupor. A magnitude do lugar é indescritível. Foi o primeiro “olha como você é pequenininha perto da mãe natureza” da Eurotrip. Aliás, esse sentimento apareceu em vários momentos a partir deste dia. Mas, voltando. As Gargantas de Todra levam esse nome por conta da formação rochosa do local: é como se dois paredões gigantescos estivessem dispostos quase que paralelamente. É exuberante (essa é a palavra!). O Mohamed deixou a gente descer do carro no começo e percorrer todo o caminho – entre os paredões – à pé. Ali no meio corre também um canal. E é válido ressaltar ainda que nesse percurso há bastante assédio por parte dos vendedores de souvenires e de crianças pedindo dinheiro. Ah, e carros e ônibus passando! Então por mais que a paisagem seja incrível, tome cuidado quando for cruzar a pista.

Vale de Dades

Por causa da água presente na região, o cenário do Vale de Dades tem tonalidades verde. A umidade possibilita o crescimento de vegetação e cultivo de plantações. Foi ali que o Mohamed parou mais uma vez o carro para podermos tirar fotos do grande palmeiral de Skoura e Boumalne. Segundo nosso motorista-guia, são palmeiras de tâmaras. Que eu, por sinal, amo. Depois disso, seguimos em direção às Dunas de Erg Chebb, em Merzouga. Mas, antes, paramos em uma loja para compra de souvenires. Lá, fomos vestidos com roupas típicas e tiramos fotos com a bandeira do povo berbere.

Dunas de Erg Chebb

Depois da sessão de fotos (e compras, para os que fizeram) paramos para almoçar. De lá, viajamos mais um bocado de carro e antes de entrar propriamente nas areias do Saara, fomos recebidos pelo “povo do deserto” para um chá de boas-vindas em uma espécie de albergue. Pois bem. Tomamos mesmo o chá, usamos o banheiro e descansamos. O lugar foi ainda um de ponto de encontro e outras pessoas se uniram ao nosso grupo. De lá nós saímos em uma caravana de dromedários para o acampamento e nossas malas foram de carro.

Os dromedários

Montei nos bichinhos? Sim. Faria de novo? Não. Sou hipócrita? Talvez, afinal, já fui, né? O que eu quero dizer é o seguinte: fiquei com dó dos dromedários. Eu não me atentei na hora que eu tinha outra opção para chegar no acampamento no deserto – afinal, nossas malas foram para lá de carro, eu poderia ter ido junto. Só depois que eu vi os animais sendo levantados para nos carregar que a minha consciência gritou e eu me senti mal. Mas, ao mesmo tempo, a caravana de dromedários e toda a experiência ao redor do acampamento no deserto é a forma como as pessoas que nos receberam ganham suas vidas. Então aqui dentro é um misto de emoções e sentimentos contraditórios. Faça o que o seu coração mandar!

O melhor pôr do sol da minha vida

Andamos por aproximadamente uma hora nos dromedários. Ao chegarmos no acampamento – que é incrível e falarei sobre ele daqui a pouco – desmontamos e já subimos nas dunas para ver o pôr do sol. E, senhores, o que foi aquele pôr do sol. Gian e eu sentamos na areia e ficamos virados para o oeste esperando o Astro Rei descer no horizonte. E foi ali que o segundo baque da Eurotrip de “olha como você é pequenininha perto da mãe natureza”. E fiquei emocionada. Cara, eu estava no Deserto do Saara. Se alguém me dissesse, há alguns anos, que eu conheceria esse gigante da natureza e diria apenas inshalá. Foi a realização de um sonho. E sonho é sonho, né?

O acampamento

O acampamento no Deserto do Saara dá de 100 a 0 no hostel que eu fiquei em Bristol, na Inglaterra. Na verdade, ganha em disparada de muitas acomodações que eu reservei durante a minha vida. Eu e o Gian ficamos em uma tenda gigante sozinhos (veja a foto) e existia uma tenda-banheiro com privada (e descarga, é importante ressaltar) e água quentinha para banho. Ou seja, zero perrengues ali. Se você é menina ou menino da cidade, fique tranquila ou tranquilo. Só lembre-se que à noite é frio no deserto, então vá com seu pijaminha quente.

Outra coisa super legal é que as refeições são feitas dentro de uma tenda-refeitório e são servidas comidas típicas. O jantar e o café-da-manhã estavam muito gostosos e o “povo do deserto” foi super simpático e solícito durante toda nossa estadia. Você via que tinha um esforço coletivo para tratar você bem. À noite, inclusive, houve uma espécie de celebração com direito a fogueira e a músicas típicas. Eles ficaram tocando até tarde e o Gian até se animou para tentar aprender um dos instrumentos.

Dia 3

Se o dia 2 foi intenso porque vimos muita coisa, o dia 3 foi insano porque ficamos dentro do carro por horas e horas e horas a fio. Saímos do Deserto do Saara, mais especificamente de Merzouga, e viajamos até Marrakech, a capital do Marrocos, só parando duas vezes. Foram mais de oito horas e meia no total de deslocamento. É pesado. Esse é um dos pontos negativos de mais ênfase na minha opinião ao contratar esse tour. Mas, vamos aos detalhes.

O nascer do sol

Na noite anterior, o pessoal do acampamento avisou a gente o horário que o sol nasceria no dia seguinte e ficamos livres para acordar ou não para assistir. E é claro que fomos, não é mesmo? E não houve nenhum arrependimento. É outro espetáculo da natureza. Não deixe de ir se tiver a oportunidade. Até o cão que morava no acampamento, chamado Max, se sentou do nosso lado neste momento. O dia amanheceu bem fresquinho, mas começou a esquentar rápido.

Depois, voltamos para o acampamento e tomamos um belo café da manhã. Demos “tchau” aos nossos anfitriões e saímos do Deserto do Saara de carro mesmo, junto com as nossas malinhas. E foi muito rápido. Embora a imensidão das dunas não deixe ver, a gente estava bem na pontinha do deserto. E de volta ao albergue, reencontramos o Mohamed, que já nos aguardava para nos levar de volta à Marrakech.

A volta

O dia todo foi dentro do carro. Nas roads trips que fazíamos quando éramos mais novas (eu e @jenifercarpani no caso), nossos pais costumavam falar que quando um lugar era muito longe, nós ficaríamos sentadas até a “bunda ficar quadrada”. Com o perdão do palavriado chulo empregado, foi exatamente isso que aconteceu no terceiro dia da tour Marrocos. Ficamos horas a fio dentro do carro com a playlist do Mohamed. Tanto que quando ele perguntou se queríamos parar para conhecer a cooperativa de produtores de Óleo de Argan, eu respondi mais do que depressa que “sim, quero” e quase pulei do veículo em movimento. Exageros à parte, percebi depois que só eu tinha me animado. Hahahaha

Ali na cooperativa tinha uma pequena exposição sobre o processo de extração e utilização do Óleo de Argan. A vendedora nos acompanhou e mostrou passo por passo e depois me deixou livre para ver a lojinha. Eu bem comprei um óleo para o meu cabelo com aroma – intenso intenso intenso – de jasmim.

Marrakech

Fica fácil identificar quando se chega à Marrakech. O trânsito é a coisa mais doida que eu já tinha presenciado na minha vida. É uma mistura de carro, pessoa, bicicleta, moto e animal, tudo na mesma via, cruzando de forma – aparentemente – desordenada. E essa movimentação ficava mais intensa à medida que nos aproximávamos no hotel, já que ele ficava a metros da Praça Jemma el Fna, um dos principais pontos turísticos da capital do Marrocos. Jantamos nas mediações e fomos para o hotel descansar.

Dia 4

Até aqui a minha experiência no Marrocos foi incrível, apesar de todo o tempo dentro do carro. Foi emocionante ver e ter contato com uma cultura tão diferente da minha bem como a paisagem tão específica desta região no mundo. Mas, tudo mudou no último dia de viagem. E vou explicar o porquê. E essa vai ser a primeira e a última vez que darei detalhes do que realmente aconteceu. Ainda fico irritada e envergonhada por ter sido enganada, embora hoje eu tenha um tapete marroquino lindo na minha casa. Que mais? Ah, sou brasileira, não é mesmo? Nasci em Suzano, na Grande São Paulo, cresci andando na 25 de Março, no Brás, na Rua do Ouro… Não era para ter sido pega desse jeito! Mas, já foi. Espero do fundo do meu cuore que o mesmo não aconteça com você. Esse é o principal objetivo do relato.

Depois de trocar de roupa para passear, coloquei a famosa Medina no meu Google Maps e sai andando com o Gian – com jeitão de turista mesmo, me julguem – pelas ruas de Marrakech. Não deu nem 10 minutos andando, um cara (que chamarei de #1) veio todo amigão falar para a gente andar mais encostadinho no canto para não morrermos atropelados porque ali onde estávamos era uma via e passava carro, pessoa, bicicleta, moto e animal. E nós estávamos, visivelmente, atrapalhando o fluxo da região. Agradecemos o bom moço e seguimos. Depois de um tempo, o #1 apareceu de novo e puxou assunto. Aquele lenga-lenga de sempre: da onde vocês são, para onde vão, o que estão fazendo e onde estão indo. E nós dois respondendo na maior simpatia. Ai ele nos disse, em tom quase de segredo, que estava tendo na cidade – somente neste dia! – um evento de couro do povo do deserto e falou que a gente devia ir porque era muito bonito de se ver e uma oportunidade única.

E a gente fez o quê? Caímos que nem dois patos. E sabe como ele deu mais veracidade? Estava passando um senhor na rua (#2) neste mesmíssimo momento e ele se prontificou a nos levar ao evento do couro. Ele não esperou, não pegou a gente pela mão e nem andou do nosso lado. Nós seguimos ele de longe de livre e espontânea vontade. Em um determinado momento até falei para o Gian: “Nosssaaaa, coitado, deve ser um saco para ele ficar com a gente seguindo”. E sabe o que me deixa mais pistola? Além de ter sido bem otária, é que eu não compro e não uso artigos de couro! Enfim, seguimos o senhorzinho até ele passar por um portão “onde seria o evento”. Ele virou, deu um “tchauzinho” simpático. Até aquele momento a gente não tinha visto o golpe vindo.

Mas ele veio, não é mesmo? E foi rápido. Entramos em um lugar cheio de tanques de tratamento de couro e o cheiro era insuportável. Um terceiro cara (#3) se apresentou neste momento e nos guiou por esse lugar, todo simpático, apresentando e dando informações de como funcionava tudo ali. Depois, ele nos levou para detro de uma loja cheia de artigos de couro. E aí surgiu o #4. Não tinha uma porta para a gente sair, era como uma casa mesmo. E o vendedor começou a oferecer os produtos. E a máxima de “só dando uma olhadinha” não funcionou. Com toda a educação que eu tenho, falava que tudo era lindo mas que eu não estava interessada. E ele continuava. Comecei a procurar as coisas mais feias e pequenas na loja para comprar e sair dali, mas não tinha nada com um preço justo ou normal (eu já tinha dado uma fuçada nas lojinhas perto do hotel e estava por dentro dos valores).

Em um determinado momento, o #4 perdeu a paciência comigo e começou a pressionar o Gian. Meu marido explicou que estávamos em uma viagem longa, que não tínhamos espaço na mala, que éramos estudantes, que estávamos economizando e que eu não usava artigos de couro. Já não sabíamos mais o que fazer para sair daquele lugar. Foi quando o #4 tentou uma abordagem diferente: com tapetes. Escolhi o menor tapete que ele tinha e ele falou que estava na bagatela de 400 euros. QUA-TRO-CEN-TOS. E começamos a repetir toda a missa novamente para o homem. Ai ele começou a tentar negociar e pechinchar. E ficava falando para o Gian que ele tinha que me dar aquele presente. Aí #4 ficou pistola – porque estávamos fazendo ele perder o tempo dele, não é mesmo? E perguntou “o quanto vocês pagariam pelo item?”. Neste momento, ele deve ter se arrependido. Porque elogiamos muito e falamos que era lindo, mas o nosso orçamento nos deixava pagar no máximo 20 euros pela peça. Ele ficou indignado. Eu também ficaria, a gente não tinha o direito de precificar o trabalho e o produto dele. Ai ele e o Gian ficaram mais um tempo nisso e, por fim, o martelo foi batido: estávamos comprando um tapete por 40 euros. Ai ele super nervoso finalmente levou a gente para a saída.

Achou que acabou por aí? Nananinanão. Assim que saímos do lugar, não deu nem tempo das vistas se ajustarem à claridade, o #3 estava lá encostado na parede esperando pela gente. Ele se aproximou e cobrou – veja bem, não pediu – o dinheiro pelo tour. Ele quis 20 euros. Fiquei chocada. O Gian abriu a boca para começar a argumentar e eu parei ele no meio da frase pedindo que ele entregasse logo o dinheiro para o homem. Meus motivos? São simples: estávamos no meio de um lugar que não conhecíamos, não falávamos o idioma local e não sabíamos o que o cara poderia fazer com a gente. Só falei paga e vamos embora no bom português mesmo. De lá, pegamos o Google Maps e corremos de volta para o hotel. Ficamos lá a tarde inteira, só saímos para jantar no mesmo lugar onde havíamos ido no dia anterior.

No dia seguinte, Mohamed buscou a gente cedinho e nos levou para o aeroporto.

Informações importantes CONCLUSIVAS PÓS-VIAGEM

Depois de passar 15 dias turistando pelo Reino Unido, cheguei no Marrocos com a guarda baixa. Essa é a minha conclusão. E estou adicionando este último parágrafo porque eu quero dizer para você que chegou até aqui – e muito obrigada por isso, aliás – que por mais que eu tenha lido muitos relatos e me preparado para fugir de todos os possíveis golpes, eu cai. Não ouso dizer que um raio não cai no mesmo lugar duas vezes, mas com certeza voltarei lá com atenção redobrada. Retornar? Sim, eu preciso conhecer a verdadeira Marrakech e ver muito mais do que eu consegui do Marrocos. E faltou coisa, viu? Eu acredito do fundo do meu coração que os bons são a maioria. Vide o Mohamed, que foi super paciente com a gente durante toda a viagem. O país é lindo, fomos bem tratados durante toda a viagem, um episódio ruim não pode manchar a experiência toda, não é mesmo?

E o que aconteceu no Marrocos poderia ter acontecido em qualquer outro lugar do mundo. Isso é um blog de viagens e eu não vou enveredar aqui por assuntos que fogem da categoria turismo, mas acho importante ressaltar o quão necessário é o dinheiro dos viajantes em países com tantas discrepâncias sociais. Meu único objetivo aqui foi contar o que aconteceu para que você possa se precaver da melhor forma possível. Na hora eu fiquei com raiva, agora eu olho para o meu tapete e está tudo bem. Acho, hahahahaha. É isso! Até o próximo post!

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