Morar na Itália: como é viver em Milão?

Você sabe que aqui no Voyajando a gente tem paixão por falar de viagens e também para contar histórias de pessoas que realizaram seus sonhos e que, de alguma forma, podem inspirar você a realizar os seus também, né? Acho que esse é um dos nossos objetivos por aqui e foi assim quando falamos sobre intercâmbios e quando falamos sobre a cidadania italiana. E será assim agora. Estamos iniciando uma nova série aqui no blog sobre Morar fora do Brasil, onde vamos trazer, de tempos em tempos, histórias de quem decidiu arrumar as malas e tentar a vida em outro lugar no exterior. É um passo e tanto de mudança – que estamos vivendo aqui, quando decidimos morar na Itália e também na Irlanda – e sabemos e sentimos na pele o quanto ler experiências prévias pode ajudar, de alguma forma, a se sentir mais preparado para o que está por vir. E se você chegou nesse texto, prepara um cafézinho e me faz companhia, porque vamos juntos conversar sobre como foi esse um ano de Itália e como é viver em Milão.


Primeiro de tudo, mas não menos importante: esse não é um post sobre passo a passo e burocracias e etc, tá bom? Sei que quando envolve mudanças de país, essa parte é importantíssima, mas não é o intuito dessa série falar sobre esses detalhes, que são mais importantes depois que a decisão do “onde vamos morar?” está consolidada. O texto é para antes disso, é para quem tem esse sonho de ir morar fora e está meio perdido sobre o que vai encontrar lá.

Essa introdução também é para te dizer que essa matéria – e essa série – são diferentes das que você está acostumada a ver aqui. É um espaço para reflexão e conversa. Tá bem?

A primeira decisão foi escolher o país para a mudança. E morar na Itália foi a nossa escolha!
Primeiro dia que saímos da nossa casa nova em Milão para comprar algumas coisas que faltavam

Agora que estamos alinhados. Comecemos! Em janeiro fez um ano que nos mudamos para Milão, na Itália, e o capítulo dessa história pré-mudança, que foi a saga da cidadania italiana e o meu reconhecimento como cidadã italiana – que me permitiu morar aqui – eu já contei aqui no blog e você pode conferir tudo clicando aqui.

A escolha de viver em Milão e na Itália

Nas últimas semanas que passamos na cidadezinha onde moramos no Piemonte, nós ocupamos parte dos dias pesquisando sobre onde iríamos morar. A ideia inicial, minha e do Bruno, era seguir para Irlanda junto com o a @jeaninecarpani e o Gian, mas em algum momento mudamos de ideia por alguns motivos que exploro a seguir. Pensamos também em ir para Londres, mas com o Brexit e a nossa cidadania sendo oficialmente reconhecida só depois de dezembro de 2020 – as portas para a Inglaterra se fecharam e não pudemos ir para lá também.

A ideia de ir primeiramente para a Irlanda foi quando entendemos que a mudança de país, muitas vezes, também implica em mudanças grandes nas profissões. Sabendo da conversão cruel do real para euro (quando chegamos era aproximadamente R$ 6!), não podíamos arriscar nossas reservas financeiras por muito tempo, e por isso a escolha por Dublin, que tem um bom salário mínimo, a língua inglesa e uma oferta de trabalho boa, era a nossa escolha natural.

As coisas mudaram um pouco quando, como vocês certamente perceberam, rs, o mundo viveu uma pandemia. Ali, quando ainda estávamos presas no Brasil sem poder vir para a Europa, o Bruno teve a oportunidade de começar a trabalhar 100% home office para o trabalho dele (para quem não sabe, o Bruno é profissional de TI). Foi ali que percebemos que talvez nós pudéssemos cogitar outros países para morar, com um clima mais amigável e com um aluguel também mais amigável – na mesma proporção que Dublin tem salários altos os alugueis por ali também são – bem – altos. A conta então fechou: procurar por lugares que tinham boas possibilidades de emprego para mim (por isso não poderia ser uma cidade pequena), com um aluguel mais baixo que o de Dublin e um clima mais ameno.

Todas as variáveis foram colocadas em uma planilha na época – lembra que eu falei que o Bruno é TI, né? – e fomos afinando as preferências, levando em consideração a língua mais fácil de aprender (adeus França, para mim, e Alemanha, para ele) e entendendo um pouco sobre como poderíamos seguir a partir dali. Resumindo o que já tá grande: apesar de Portugal (salário médio menor) e Espanha (praticamente zero espanhol por aqui) estarem super em “alta” na nossa planilha pessoal, a Itália acabou vencendo por variáveis como: documentação (a minha tava ok depois da cidadania), clima, salário médio um pouco mais alto que Portugal, língua (estávamos no básico do básico, mas nos virávamos no italiano-terra-nostra) e localização do país (para podermos viajar por aí hahah).

Viver em Milão: tudo requer adaptação e muita força de vontade
A primeira vez que pisei em Milão e descobri que amaria morar aqui

Por que viver em Milão?

E exploro aqui um pouco mais a questão da localização para falar de Milão. Quem acompanha a gente pelo Instagram (segue aqui) viu o quanto fiquei feliz em visitar Roma pela segunda vez esse ano. Eu amo aquela cidade, é grande, incrível e cheia de possibilidades. Mas fica mais ao centro da Itália. Como um dos nosso grandes objetivos em vir morar na Europa era viajar e conhecer os países daqui, achamos que Milão, além de ser mais perto para sair do país de carro, teria mais possibilidades de emprego por ser no norte do país – que ao longo dos anos acabou se desenvolvendo mais depressa e tem mais opções de trabalho, mais empresas localizadas aqui e maiores salários.

Pensando no norte do País, temos algumas cidades com boas recomendações de brasileiros. Entre elas estão, claro, Milão, Turim e Verona, por exemplo. Daí a escolha por Milão foi mais natural para mim. Boa rede de transporte pública (não ótima, mas boa hahaha), uma cidade mais cosmopolita, com gente de todo o mundo e talvez o mais parecido que eu poderia chegar – ao meu ver, naquela época – da minha amada São Paulo no Brasil.

Alugar casa ou apartamento para viver em Milão

Chegamos em Milão em janeiro de 2021, no meio do lockdown da pandemia, com tudo fechado. A visita para alugar a casa foi feita por vídeo chamada com a funcionária da imobiliária, porque não estavam permitidos os deslocamentos entre regiões (sairíamos do Piemonte para vir para a Lombardia, onde fica Milão). Essas variáveis contribuíram para que a gente encontrasse um apartamento bom, com um valor que poderíamos pagar e com um proprietário mais flexível.

Digo tudo isso porque tenho que te explicar que alugar casa ou apartamento na Itália e não só em Milão, mas em todo o país – pode ser um desafio. Preços altos em grandes cidades, proprietários desconfiados, exigências de bons contratos de trabalho, cauções altíssimos, taxas da imobiliária, às vezes até pedidos de aluguel adiantados. Muitas vezes, mesmo com tudo isso em mãos, ainda assim pode ser desafiador alugar casa por aqui, e por isso digo que tivemos sorte.

A sorte é uma variável que muitas vezes pode demorar para aparecer na sua vida de imigrante. Não dá para contar com ela, mas às vezes ela vem e te dá aquele empurrãozinho essencial. Com a gente, para arranjar um apartamento bacana para morar em Milão, foi assim.

Não quero dizer que é impossível. E também não quero dizer que é fácil. Só queria dizer que a minha experiência foi assim e, devo dizer também, que reconheço os fatores que contribuíram com isso. A sua talvez não seja, mas isso também faz parte da experiência de imigrar: cada um vai vivê-la de um jeito.

Nossa casinha – e baguncinha do dia a dia – em Milão

Morar na Itália: a adaptação

A capacidade de se adaptar acredito que seja uma das habilidades mais importantes do ser humano. A gente tem essa habilidade – uns mais e outros menos – e tem muito a ver também com o estar disposto a fazer dar certo e também contar com a ajuda e reconhecer nossas vulnerabilidades. Enfim, a gente olha bastante para dentro nessas mudanças grandes de vida, né?

Eu não posso dizer que a nossa adaptação por aqui foi difícil. Não foi. Sei dos privilégios que me levaram a ter uma casa alugada com “certa” facilidade e também de todos os fatores que contribuíram para que eu começasse a me adaptar mais rápido. Mas veja que não digo que me adaptei. E não sei se esse verbo entrará no passado perfeito por aqui. Adaptação também tem a ver com movimento, e a vida, ao meu ver, é movimento também.

Mas algumas coisas me ajudaram nesse processo, e para te ajudar também, vou listá-las aqui embaixo:

  • Língua – quanto mais você vier sabendo o italiano, mais fácil será sua comunicação e, logo, sua adaptação.
  • Curiosidade – seja curioso sobre a cultura, sobre o modo de pensar, sobre a língua, sobre a gastronomia, sobre tudo que puder te ajudar a descobrir mais sobre o país que você está escolhendo.
  • Burocracias – elas vão te pegar em algum momento – e na Itália podem te pegar E te maltratar hahahaha. Sabendo disso, fique preparado. Estude, entenda mais ou menos como funcione. Pergunte e questione. Procure ajuda se precisar.
  • Cultura – é tipo o tópico da curiosidade, mas com reforço. Busque entender a cultura – e toda as nuances relacionadas à ela. Entenda que você cresceu em um contexto diferente e que o que é normal para você, pode não ser para o outro. Se lembre que o estrangeiro é você. Jeitos de pensar e de agir moldam uma sociedade e existem por quês por trás disso que talvez a gente nunca seja capaz de entender. Então, se puder, tente não olhar com lentes de julgamento.
  • Julgamento alheio – aliás, falando nele, esse a gente também tem que procurar deixar um pouco de lado – ou se você tiver uma estratégia melhor, me conta. Porque ele existe. E se você baixa a guarda, pode machucar. Julgamentos de quem ficou no Brasil sobre os motivos de você ter ido embora. Julgamentos de quem te conheceu aqui pelo que você faz, o modo como você fala a língua deles, como você se veste, come, quando faz cada coisa. Claro que posso estar exagerando, mas o foco do texto é para te preparar né?
  • Raízes – muita gente sai do Brasil por muitos motivos. Não sei quais são os seus – talvez nem você saiba – mas para mim, de vez em quando, é importante reforçar minhas raízes, sabe? Cheguei aqui e passei a valorizar muito mais a língua portuguesa (português-BR, gosto de salientar), passei a gostar mais da nossa música, da nossa comida, do nosso país. Sejam por quais motivos forem, se for importante para você, não deixe isso de lado. Me ajuda a recarregar as baterias em tempos de baixa.
Um dos primeiros passeios que demos para conhecer a cidade quando as coisas reabriram na pandemia

Emprego na Itália

Se tratando de um post da Itália, só tem polêmica. Hahahaha, explico: nos grupos de brasileiros no Facebook, existem duas Itálias: aquela que tem emprego pra chuchu e aquela que não tem emprego nem para os italianos. Eu, Jenifer, não vivo em nenhuma delas. E não costumo gostar de ver as coisas assim, tão preto no branco, sem as nuances dos vários talvez dessa vida.

Tô filosófica né? Eu sei. Mas é que se trata da sua vida, voyajante, e isso tem tantas variáveis que simplesmente não dá para cravar uma resposta ou cenário certo em absolutamente nada. Emprego aqui na Itália: tem? Tem. Para todo mundo? Está chovendo emprego? Não exatamente. Assim como em todos os lugares, existem empregos e existem os empregos para você. Isso quer dizer que você vai precisar estabelecer quais são os seus critérios de trabalho. E ainda que você seja a pessoa que “topa e está disposta à tudo“, ainda ali você vai precisar de algumas habilidades que talvez exijam italiano, experiência prévia, morar perto, e muitas outras coisas mais.

Como várias questões na vida de quem vem morar fora, a questão do emprego aqui é um grande depende. Conheço pessoas que tiveram dificuldades para começar a trabalhar, outras arranjaram emprego rápido. Outras estão procurando até hoje. Depende da sua disponibilidade para o novo, depende da oferta de empregos na cidade ou região que você está. Depende, depende, depende.

Dá para se preparar para ter menos dependes? Dá. Se você vier com um italiano bom, um inglês bom, um currículo bom, ou tem experiência prévia em uma área bastante escassa de trabalhadores, é bem provável que você se recoloque fácil por aqui. Se não é o seu caso, estude, corra atrás, busque experiência, converse com pessoas, se exponha ao networking, faça o que estiver ao seu alcance e acredite, uma hora as portas se abrem.

Contando então, rapidamente, a minha experiência. Meu primeiro trabalho na Itália foi em um call center, como costumer service em uma empresa que atua também no Brasil. Trabalhava no horário do Brasil, ou seja, a tarde e à noite aqui na Itália, e ligava diariamente para brasileiros. Foi bom porque ali conheci amigos brasileiros e construi parte da minha rede de amigos que tenho hoje por aqui – e que também me ajudaram no fator adaptação que falei ali em cima. Mas sabia que não era uma atividade que eu gostaria de continuar desenvolvendo. Fiquei seis meses aproximadamente, enquanto continuava estudando italiano e inglês, e resolvi sair porque a empresa não era tão bacana assim – e isso acontece bastante também, alguns amigos levaram inclusive golpes de trabalhar para outros lugares e não receber, infelizmente.

O dia em que fui assinar meu primeiro contrato de trabalho na Itália – não era um bom contrato, mas era o primeiro

Na época, já havia uma abertura da economia na Itália, as coisas estavam voltando ao normal aos poucos (antes das ondas da Delta e da Ômicron) e eu já estava em busca de outras possibilidades e hoje trabalho na secretaria científica de um prêmio internacional. Entre outras funções de back office, trabalho com banco de dados e também com gestão de candidatos a esse prêmio, então o trabalho se desenvolve todo em italiano no escritório e inglês no contato com os candidatos.

Se você vier mesmo morar aqui na Itália, você vai ouvir bastante falar dos tipos de contratos trabalhistas que existem por aqui (alô indeterminado). Não é o foco do texto e não vou me aprofundar nisso. Mas quis deixar esse parágrafo aqui para te adiantar que é diferente do Brasil e que isso vale bastante por aqui como sinal de “bom emprego” ou de não. Aquele primeiro emprego ali em cima que eu tive me trouxe alguns problemas com relação ao contrato, no sentido de ter que abrir un CNPJ aqui para trabalhar ali (que não, não é igual ao MEI no Brasil, mas eu não sabia disso e as taxas são bem altas).

Celebrar as pequenas vitórias

Eu falo bastante disso também na vida hahahaha. Acho que quem me conhece sabe da minha alma pseudo-filosófica. Mas, por aqui, consideramos importante celebrar as pequenas vitórias. Às vezes, a burocracia – ou outras coisinhas chatas – te derrubam. Mas é tão legal quando dá certo, sabe? E se você não pára para celebrar essas pequenas vitórias, você talvez deixe de percebê-las e elas se perdem no dia a dia.

O contrato de aluguel. A renovação do meu contrato de trabalho. A compra do primeiro carro. O visto de moradia do Bruno. Um documento aqui, um outro check ali. E assim vamos vivendo com brindes de vinho do mercado – que aqui na Itália são ótimos, veja bem – e celebrando cada pequeno passo que deixará a nossa vida de imigrante o mais confortável, alegre e leve possível. Te convido a fazer o mesmo – e depois vem aqui me contar tá?

Estamos bem?

Estamos. E acho que é sobre isso, você não acha? O saldo até agora tem sido positivo. De vez em quando é bom parar e analisar se esse saldo continua assim né? O seu tem sido positivo aí? Se sim, é o que importa! Se não, o que dá para fazer para mudar? E assim vamos vivendo e ajustando a rota. 🙂



SOBRE NÓS

O Voyajando surgiu do sonho de criar um espaço para trocar dicas de passeios, restaurantes, hotéis e tudo o mais que envolve os pequenos períodos maravilhosos da vida que chamamos de viagens. São elas que nos proporcionam a possibilidade de descobrir novos universos, ter contato com outras culturas e outros jeitos de ver a vida. O Brasil e o mundo estão cheios de lugares incríveis. Vamos conhecê-los juntos?
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